Especial - A Queda do Muro de Berlim | 20 Anos Depois

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O capitalismo se equilibra sobre os escombros do MuroPor Dani Blaschkauer e Marcelo Cabral
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A perplexidade foi quebrada por um grito. Seria o primeiro dos muitos berros, assovios, canções, explosões de fogos de artifício e lágrimas que iriam compor a trilha sonora da liberdade na noite daquela quinta-feira. Quando o barulho das picaretas batendo contra os tijolos foi ouvido, o Muro de Berlim já era passado. Sob os pés da população que chorava, dançava e se abraçava ao cruzar a fronteira para o Ocidente restavam apenas pedras, poeira e os restos de uma ideologia prestes a ser enterrada pela história. A data de 9 de novembro de 1989 ficou registrada nos livros como o ponto final do processo de agonia do ideal comunista, diariamente esfaqueado em seu âmago por mais de sete décadas de repressão à liberdade. Naquele dia, quando os alemães orientais ouviram o porta-voz do governo anunciar que as passagens para o lado capitalista da capital alemã seriam abertas depois de 40 anos de separação, eles ainda não sabiam que aquele seria o passo inicial de uma estrada que, um ano depois, levaria à reunificação do país. Mas já era possível enxergar os sinais que o mundo também se unia, deixando de lado a polarização entre duas doutrinas opostas. O planeta passou a respirar, dormir e consumir capitalismo. "O mundo foi sacudido por esse evento. Desapareceu o contraponto à doutrina capitalista, que se tornou hegemônica", afirma Paulo Márcio Cruz, da Universidade espanhola de Alicante. "A Queda do Muro e do antigo bloco soviético representou a derrocada do chamado ‘socialismo real'. Deixou de existir uma alternativa ao capitalismo de mercado", completa Demétrio Magnoli, doutor em geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Hegemonia Com o funeral do comunismo, um novo termo começou a ganhar espaço. A população foi apresentada ao neoliberalismo, uma tese que propõe a retirada do Estado da economia, a desregulamentação dos mercados e o fluxo completamente livre de mercadorias e serviços. Se o comunismo foi a versão radicalizada do socialismo, o "novo liberalismo" pode então ser encarado como o capitalismo ligado na potência máxima. "O neoliberalismo atingiu seu auge na década de 1990, embalado pela Queda", reforça o professor de história da USP Angelo Segrillo. Tal hegemonia fez com alguns historiadores - como o americano Francis Fukuyama - falassem no "Fim da História". A humanidade teria encontrado o seu sistema econômico definitivo, que iria promover a prosperidade. O problema é que, na prática, as coisas não funcionaram como previsto. "Naquele primeiro momento, o neoliberalismo surgiu parecendo que iria resolver tudo", afirma o professor Mário Armando Guerreiro, do Ibmec São Paulo. "Depois, porém, houve um revés social. Se a macroeconomia parecia resolvida, no lado social ficou faltando algo", completa. "O que muitos discutem é exatamente como limitar um poder capitalista que não se submete ao interesse da maioria, não está preocupado com a pobreza e é negligente comapreservação da vida no planeta", emenda Cruz. Encruzilhada A crise econômica global que atingiu o mundo nos últimos anos foi a gota d´água que faltava para colocar o modelo capitalista neoliberal em xeque. "Nos anos 2000, teve início uma reflexão mais crítica sobre esse sistema. E isso ganha impulso com a crise atual, devido ao diagnóstico de que ela foi facilitada pela desregulamentação neoliberal", afirma Segrillo. A turbulência dos últimos anos abriu espaço para a busca de um novo modelo que pudesse reunir o que havia de melhor nos sistemas anteriores. Apelidada de "Terceira Via", essa alternativa ainda é tema de muitos debates. "Isso não significa o ‘Fim da História'. Neste início de século, marcado por um declínio relativo dos EUA e pela ascensão chinesa, o capitalismo de Estado emerge como alternativa ao capitalismo de mercado. Os termos da disputa ideológica mudaram, mas existe uma disputa", completa Demétrio. O que se percebe então é que o mundo está próximo de uma encruzilhada. O comunismo tombou sob as marretadas de uma população cansada da repressão. Vinte anos depois, o neoliberalismo se curva aos golpes desferidos pela estagnação, pelo desemprego e pela falta de perspectivas. A história, paciente, aguarda o momento para eleger a ideologia que vai conduzir os destinos do século 21. |
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