Novo orçamento prevê salário mínimo de R$ 538 para o ano que vem, valor que precisa ser aprovado pelo Congresso
Comunidade
Meta para superávit primário como proporção do PIB deixa de ser usada, enquanto investimentos continuam sendo abatidos.
Uma política fiscal mais frouxa e menos transparente será uma das heranças que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixará para seu sucessor. Dois exemplos desse relaxamento foram confirmados no Projeto de Lei Orçamentária 2011 apresentado ontem ao Congresso Nacional.
A partir do ano que vem, a meta de superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) não será mais perseguida como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), mas, apenas, em valores (R$ 125,5 bilhões). Deste total ainda poderão ser abatidos R$ 32 bilhões que tenham sido destinados aos investimentos federais.
De um lado, a equipe econômica defende a continuidade de regras mais flexíveis, ostentando um crescimento exponencial do volume de inversões que deve chegar a R$ 43,5 bilhões em 2011 ante R$ 16,2 bilhões empregados em 2007.
De outro, especialistas em contas públicas enxergam que as consequências mais perversas dessa "nova contabilidade" estão por vir.
Segundo o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo, a adoção dos valores como meta dará mais previsibilidade para o governo cumpri-la e que optou-se por essa sistemática devido à frustração da atividade econômica no ano passado.
Com menor receita, o governo federal teve de recorrer a inúmeros recursos para chegar próximo ao objetivo de 2,5% do PIB. "Se o próximo governo mantiver essa regra, ao longo de dez anos ficará neutro. Com a sistemática atual, é preciso calcular [o percentual] sem saber efetivamente o PIB", explicou. "Quem chegar no ano que vem vai chegar sabendo quanto é sua meta efetiva".
O governo reduziu o objetivo dos atuais 3,3% para 3,2% do PIB a ser cumprido no ano que vem. Segundo João Bringel, secretário-executivo da pasta, a diferença é de R$ 3,1 bilhões considerando expansão das riquezas do país de 5,5%. "Isso é irrelevante comparado a um orçamento de R$ 900 bilhões", disse.
Bringel afirmou que o que interessa é a trajetória de queda do endividamento. Pelos dados apresentados por ele, o déficit nominal (juro da dívida que não conseguiu ser pago com a economia) está recuando dos 5,13% em 2003 para 1,60% neste ano e com projeção de que chegue a 0,96% em 2011.
Com isso, ele espera que a relação entre a dívida e o PIB caia a 36,8% ante os 41,7% pelos últimos dados divulgados pelo Banco Central.
Para o economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman, o problema é que esta fórmula poderia gerar um estímulo para a subestimação sistemática do PIB quando ocorresse a formulação do orçamento.
O ideal, diz, seria que a projeção do PIB fosse feita por uma agência independente para evitar esta prática. Sobre o abatimento do PAC, o economista diz "ser mais transparente dizer que a meta é menor. Melhora a transparência. Hoje ninguém sabe dizer exatamente qual a meta que o governo persegue".
Felipe Salto, da Tendências Consultoria, avalia que o governo acha que ganhou certa liberdade sem custos porque não vê isso no curto prazo, uma vez que a dívida está caindo com o PIB em expansão.
"Mas a continuar afrouxando as rédeas isso vai bater em algum momento na expectativa sobre a solvência do país", diz, lembrando que a credibilidade demora a ser construída, mas pode ser rapidamente perdida.
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