No Brasil, assim como no restante do mundo, muitas empresas nasceram de iniciativas de empreendedores que, começando do nada, venceram e construíram grandes corporações.
Uma parte desses empreendedores passou o bastão para administradores profissionais, enquanto outros continuaram à frente da gestão. Vários, inclusive, transferiram para filhos e netos a administração da empresa.
Quando a administração da empresa está dissociada da propriedade, isto é, quando o dono delega aos administradores profissionais a gestão, surge um natural conflito que os acadêmicos chamam de conflito de agência.
O entendimento é simples: o administrador profissional é um agente contratado pelos donos da empresa. Os objetivos do agente podem conflitar com as metas do proprietário, gerando custo de agência.
Por exemplo, o gestor da empresa pode se dar alguns mimos (alugar jatinhos para se deslocar e fazer compras pessoais com o cartão corporativo, entre outros), não trabalhar com afinco em projetos que criem valor, aventurar-se em negócios muitíssimo arriscados por conta de outros interesses, etc.
Ao fazer isto, o gestor não está trabalhando nos melhores interesses da firma e de seus proprietários.
Conforme discutido nesta coluna em 11/01/2010, uma maneira encontrada de alinhar os interesses dos acionistas com os dos administradores é via a concessão de stock options.
Embora a concessão de stock options aos administradores faça com que haja um maior alinhamento entre os interesses dos proprietários e dos gestores, o conflito de agência continua presente, já que persiste a assimetria entre os ganhos e perdas dos gestores e acionistas, de acordo com os resultados da companhia.
Esta assimetria é fruto do desenho dos planos de remuneração variável, que incentivam os gestores a aceitar projetos que carreguem muito risco.
O raciocínio feito pelo administrador é simples. Se o projeto arriscado der certo, o bônus é polpudo. Se der errado, perde-se o emprego.
Note que para o administrador a perda é relativamente pequena vis-a-vis os ganhos potenciais.
Por outro lado, na ótica do proprietário, o fracasso de um projeto é mais traumático, pois lhe custa milhões ou, até mesmo, bilhões.
Os anos recentes foram pródigos em evidenciar essa lógica. Muitos gestores financeiros arriscaram bilhões de reais dos proprietários em operações de especulação com câmbio, lançando mão de derivativos.
Se as operações tivessem dado certo, eles seriam premiados com substanciais quantias. Se as operações falhassem, na pior das hipóteses, perderiam seus empregos.
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Rafael Paschoarelli é professor de finanças da Universidade de São Paulo (USP)
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Interessante comentar que no setor público o custo de agência é muito presente. Atualmente, a forma encontrada para apaziguar o custo é a de proporcionar gratificações por desempenho de função.