Estudo aponta comprometimento da cadeia produtiva de ferro-gusa com trabalho escravo e devastação ambiental.
No último dia 24 de maio, a pequena Nova Ipixuna, no Pará, ganhou notoriedade nacional devido ao assassinato do líder ambientalista José Cláudio Ribeiro, e de sua mulher, Maria do Espírito Santo. Depois de diversas denúncias de trabalho escravo e devastação florestal em carvoarias clandestinas da região, o casal foi morto em uma tocaia. A Polícia Federal desconfia que o crime foi encomendado.
No mesmo dia em que essa notícia corria o mundo, a ONG Observatório Social fazia os últimos ajustes no texto final de uma longa pesquisa que começou justamente em Nova Ipixuna.
O estudo, que será apresentado hoje em São Paulo, aponta que a cadeia produtiva que começa com a produção de ferro-gusa na Amazônia e termina com a fabricação de automóveis no Brasil e no exterior está contaminada pelo trabalho escravo e a devastação ambiental.
Na ponta de baixo do processo estão carvoarias clandestinas nas quais a força de trabalho é majoritariamente análoga à escravidão e a madeira é obtida quase toda de forma ilegal. Esses carvoeiros, segundo a ONG, fornecem carvão sem registro para outras carvoarias credenciadas e auditadas pelo Instituto Carvão Cidadão (ICC).
O volume "extra" seria somado ao produzido regularmente. Dessa forma, todo o carvão comprado pelas siderúrgicas chegaria com o selo de auditado.
As siderúrgicas, por sua vez, produzem o ferro-gusa utilizando carvão e minério de ferro comprado da Vale, que em 2008 assinou um acordo com o governo federal no qual se comprometia a não vender minério para siderúrgicas envolvidas com trabalho escravo e processos de devastação ambiental. Uma vez pronto, o ferro-gusa é vendido para empresas americanas que o transformam em aços especiais, exportados para montadoras como Nissan, Ford, Toyota e GM.
Direitos humanos
"Depois da morte do José Cláudio e da Maria, o Ibama foi à região de Nova Ipixuna e fechou várias carvoarias. Naquela área, o trabalho escravo e infantil é recorrente. Os trabalhadores sofrem de doenças pulmonares graves", diz o advogado Sergio Martins, coordenador da Sociedade Paraense de Direitos Humanos.
Ele conta ainda que os carvoeiros não recebem material de proteção e têm jornadas extenuantes de trabalho. Segundo o pesquisador Marques Casara, que encabeçou a pesquisa do Observatório Social, a indústria de ferro-gusa entraria em colapso se todo o processo fosse dentro das normas internacionais e das leis ambientais.
"Se o uso de madeira ilegal nas carvoarias fosse interrompido, a produção de ferro-gusa entraria em colapso. Isso aconteceria também em Minas Gerais e Mato Grosso. Há outra alternativa que custa muito caro: plantar eucalipto".
Para chegar a essa conclusão, a ONG coletou os dados de produção dos últimos 12 meses das carvoarias supondo uma improvável produção de 100% da capacidade dos fornos durante todo o ano. Os pesquisadores contaram com ajuda do Ibama.
"Checamos quanto ferro-gusa é possível produzir com aquela quantidade de carvão. Nós usamos como base o relatório oficial das auditorias do ICC até dezembro de 2010, depois cruzamos com a quantidade de gusa vendida no mercado", diz.
Segundo o estudo, quatro siderúrgicas utilizariam quase 100% de carvão oriundo de "lavagem": Cosipar, Usipar, Sidepar e Sidenorte.
"O caso mais grave é o da Cosipar, que foi expulsa do ICC e do Pacto Nacional de Enfrentamento do Trabalho Escravo. Se você ficar uma semana na BR 150 acompanhando uma fiscalização do Ibama, vai ver que de cada dez caminhões parados e apreendidos com carvão ilegal, pelo menos seis estão indo para a Cosipar".
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