A caminho do Kennedy Space Center, na Flórida, o motorista haitiano mal se refere ao terremoto em seu país.
Ao som de salsas e rumbas, pergunta sobre a situação econômica do Brasil e lamenta a crise nos EUA, que teria acabado com a sua facilidade para mudar de emprego.
Há dez anos nos Estados Unidos, Aristide reconhece a sorte de não estar em Nova York, onde amigos enfrentam tempos mais duros. E também já incorporou o valor da mobilidade social.
O dinamismo da economia nas duas últimas décadas e a flexibilidade da legislação trabalhista explicam em boa medida a imigração e a mobilidade no mercado de trabalho local. E permitem a Aristide, no olho da crise e ainda otimista, não pensar no Haiti, mas em levar o filho de oito anos ao centro espacial, assim que puder.
Pelo menos para ele, ainda empregado, o sonho americano parece de pé.
O interesse do haitiano pelo nosso país se explica pelo grande número de brasileiros passeando e comprando com um ímpeto inabalável.
O câmbio ainda favorável, a brevidade da nossa recessão e a colossal tributação ao consumo interno exportam parte da nossa demanda por turismo, eletrônicos, vestuário e perfumaria.
Os que não têm como consumir lá fora ficam reféns dos altos preços internos, crias da pouca competição e da muita tributação que nos assolam.
E as viagens de compras dos brasileiros vão abrindo espaço para os negócios e o trabalho de mais conterrâneos, o que talvez explique o trato frio que nos dispensam os hispânicos.
A velha luta por lucros e empregos dá a impressão de por em xeque a sua boa vontade com os brasileiros, pelo menos na Flórida em crise.
O grande número de trabalhadores idosos - em todo tipo de função - também chama a atenção e remete ao Brasil e à certeza de que há algo de podre no reino da nossa previdência.
Com tantos aposentados relativamente jovens, entre cinqüenta e sessenta anos, estamos construindo uma pressão duradoura sobre as nossas contas públicas e a necessidade de maior tributação futura, o que debilita nossas possibilidades econômicas.
E a menor expectativa de vida dos brasileiros não justifica nosso pendor para a aposentadoria precoce, já que duas de suas causas - as maiores taxas de mortalidade infantil e a de homens entre 15 e 25 anos - não influenciam a expectativa de vida dos que sobreviveram até os cinqüenta.
Contudo, nosso relato de viagem não tem como se furtar à constatação mais óbvia: continuamos na idade da pedra em termos de infraestrutura.
Nossos aeroportos, estradas e condições de locomoção em áreas urbanas são uma piada de raro mau gosto, em especial para os que tenham alguma limitação física.
Ou seja, de perto ou de longe, o Brasil é o mesmo: cruel com os contribuintes, os consumidores e os que buscam um emprego com carteira assinada, pródigo com a elite de seus aposentados e pobre em infraestrutura de todo tipo.
Saudades do Brasil?
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William Ricardo de Sá é professor associado da UFMG
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