Para o "poder-espetáculo" importam popularidade, anúncios altissonantes e a memória curta da platéia, sempre capaz de relevar os fracassos recentes do prestidigitador de plantão e de se deixar encantar por novas promessas e falsos brilhantes.
Tome-se o PAC. Análises independentes como a do site Contas Abertas indicam ter-se cumprido apenas 11% do prometido pela primeira versão do programa. Para o governo, por sua vez, quase 50% foram concluídos.
Não nos cansemos com a busca da verdade entre versões tão díspares. Num gesto de ousadia "chapa-branca", suponhamos que o governo tenha razão e avaliemos tal desempenho em outros afazeres.
Por exemplo, imagine-se a edição de hoje do Brasil Econômico com metade de suas páginas, assuntos ou volume de informações habitual e a reação esperada de seus assinantes. Ou, de modo mais pedestre, que cada um de nós passasse os mesmos três anos e três meses de vida do PAC cumprindo pouco menos da metade de nossas tarefas e promessas.
Qual seria nossa popularidade com os superiores, alunos, familiares, sócios, amigos e credores, caso tivéssemos cumprido apenas 50% do por eles esperado?
Pois bem, no mundo da "política-espetáculo" sobreviveríamos, desde que capazes de fazer, com muita lábia e desfaçatez, novas e mirabolantes promessas. Um PAC 2, por exemplo, que tirasse o foco do muito não cumprido e o desviasse para as possibilidades do futuro, que a Deus - outro brasileiro - dizem pertencer.
Um circo parecido vai sendo armado em torno do projeto do trem-bala Rio - São Paulo. Os orçamentos preliminares envolvem valores próximos de R$ 40 bilhões. Dada a tradição de sobrefaturamento patológico de nossas obras públicas, apenas um concurso de palpites sobre o multiplicador esperado desse valor inicial estaria à altura da incerteza quanto ao tamanho final da conta.
Mas isso não é tudo. A proposta do trem-bala, além de seus méritos eventuais, tem mil e uma utilidades e serve como a pomada Maravilha capaz de esvaziar o debate sobre o reiterado fracasso do governo em prover infraestrutura aeroportuária à altura do tráfego aéreo já existente no país ou promover a expansão do transporte por metrô em nossas grandes cidades.
Não faria mais sentido se usar os recursos imaginados para o trem-bala nessas duas opções de transporte, de modo a lidar com gargalos óbvios da nossa infraestrutura?
No caso dos aeroportos, o prometido é o investimento de algo em torno de R$ 8,5 bilhões nos 16 aeroportos das cidades-sede da Copa, o suficiente para apenas manter, em 2014, os níveis de saturação e subdimensionamento já existentes. Com mais R$ 500 milhões, daria até para se ter softwares de controle de voo à altura dos melhores do mundo.
Convenhamos, uma bagatela, diante dos quase R$ 40 bilhões inicialmente previstos para o trem-bala. E com o troco, de mais de R$ 30 bilhões, daria para algum avanço nas nossas redes de transporte urbano.
Mas o que são os problemas reais frente às soluções imaginárias?
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William Ricardo de Sá é professor associado da UFMG
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