Arranjos políticos bem sucedidos devem compor interesses e conflitos de maneira democrática, eficiente e justa em termos distributivos. E a mágica no atendimento a esses quesitos é combinar as motivações particulares da cada liderança ou interesse relevante de modo a obter um bom governo, que amplie as oportunidades e a liberdade dos cidadãos.
Quanto a isso, o que esperar da democracia brasileira, em especial em um ano de eleições?
Nossa democracia prospera, apesar da tibieza de nossos partidos, do tom rarefeito e não raro mal educado do debate político e da virtual impossibilidade de que se consolidem escolhas consensualmente tidas como desejáveis.
Exemplos não faltam, na política externa, na atuação do Banco Central, na regulação dos setores de infraestrutura e no tamanho e conjunto de atribuições do Estado, dentre outros.
Em todos esses casos, caberia buscar acordos duradouros, de modo a definir os horizontes de políticas que não se deveria poder alterar a cada novo governo, por se referirem a interesses de longo prazo da sociedade ou a uma agenda de Estado.
As eleições bem poderiam se prestar à separação entre o trigo dos consensos e o joio dos debates meramente eleitorais, importantes, por certo, mas de menor conseqüência.
A esse respeito, me reservo o direito a um pessimismo moderado, função dos candidatos e dos vícios e cacoetes de campanha já anunciados.
Entre os competidores mais notórios, caberia à ministra Dilma Rousseff, por exemplo, explicar-se sobre a gestão macroeconômica dos seus sonhos.
Todos se lembram da presteza e vazio conceitual com que ela taxou de "rudimentares" as propostas de 2005 dos ministros Palocci e Paulo Bernardo de se discutir um teto para a expansão das despesas públicas correntes no Brasil, com o fito de se limitar o endividamento público - e a conta de juros - e de se abrir espaço para maiores investimentos.
Se eleita, continuaria a candidata a flertar com a frouxidão fiscal, como em 2005? E quanto à política monetária?
É eloqüente o silêncio de Dilma nos oito anos em que o Banco Central foi alvo prioritário do fogo mui amigo dos petistas. Conivência com os críticos ou desinteresse pelo tema?
Na gestão macroeconômica, aliás, o candidato José Serra também tem muito a explicar.
Crítico contumaz do "Malanismo" e da política monetária do Banco Central nos anos Lula, Serra sequer se deu ao trabalho de aplaudir ou qualificar a fala do Deputado Sérgio Guerra, presidente do PSDB, que anunciou a virada de ponta-cabeça da política econômica na hipótese de vitória da oposição: juros, câmbio e metas de inflação estariam na berlinda.
Reinventou-se a roda da macroeconomia nos laboratórios do PSDB ou tudo não passa de irresponsabilidade de campanha?
A grande questão, afinal, é simples: figuras da importância dos dois candidatos têm o direito de não ter opinião clara sobre temas como a política econômica, a regulação da infraestrutura ou o tamanho do Estado, inflando o risco-Brasil às custas das nossas perspectivas econômicas?
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William Ricardo de Sá é professor associado da UFMG
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