Antonio Palocci foi inocentado no ano passado da acusação de quebra de sigilo bancário
Comunidade
O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci pode agradecer à Pacific Investment Management (Pimco) por ajudá-lo a preparar o caminho para uma possível vitória de Dilma Rousseff nas eleições em outubro.
A Pimco, maior gestora de fundos de bônus do mundo, com sede em Newport Beach, na Califórnia, escolheu a dívida brasileira como seu investimento favorito entre mercados emergentes, principalmente por causa da confiança em Palocci, 49 anos, que há quatro anos renunciou ao cargo de ministro da Fazenda em meio a acusações de quebra de sigilo bancário para depois ser absolvido pelo Supremo Tribunal Federal.
Hoje, Palocci é deputado federal pelo estado de São Paulo e assessor econômico da candidata à presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Desde que a Pimco aumentou as aplicações no Brasil há oito anos, os títulos de referência da dívida externa do país, com vencimento em 2040 e cupom a 11%, triplicaram para 137% do valor de face com a queda da taxa para 7,81%.
"A mão firme de Palocci foi o que manteve nossa posição mesmo depois que os preços começaram a se recuperar", disse Mohamed El-Erian, presidente da Pimco, que se encontrou com o ex-ministro duas vezes depois da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.
A ligação entre Lula e Palocci "nos deu a confiança necessária para fincar raízes profundas" para a Pimco, que triplicou as aplicações em títulos brasileiros numa época em que o comentário geral era de moratória.
Dilma, que é a candidata do presidente Lula e nunca disputou uma eleição, tem uma vantagem de 20 pontos percentuais sobre o candidato da oposição, José Serra, nas intenções de voto, segundo pesquisa da Datafolha divulgada em 26 de agosto.
A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais e foi feita com 10.948 pessoas.
Novamente necessário
A insistência de Palocci em manter a austeridade fiscal durante o primeiro mandato de Lula volta agora a ser necessária para restringir os gastos do governo e a "enxurrada" de financiamentos de bancos estatais, disse Thomas Trebat, coordenador do Instituto de Estudos da América Latina na Universidade de Columbia, em Nova York.
A dívida pública bruta, que caiu de 67% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2002, para 56% no ano em que Palocci deixou o governo, voltou a subir este ano para 60% do PIB, de acordo com o ministério da Fazenda.
Esse aumento é resultado da expansão dos gastos do governo a um ritmo mais acelerado do que a economia do país.
"Caminho Certo"
"O que Palocci fez como Ministro da Fazenda colocou o Brasil no caminho certo", afirmou Trebat, que é ex-analista do Citigroup. "Agora o Brasil precisa dele de novo."
Palocci, que tem sido visto frequentemente ao lado de Dilma em debates, não quis fazer comentários para esta matéria.
Como ministro da Fazenda, Palocci antecipou o pagamento de US$ 15,5 bilhões em empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e conseguiu a aprovação de uma lei de falência que prioriza credores em vez de trabalhadores.
Ele também criou novas regras que permitiram debitar diretamente dos salários o pagamento de empréstimos, o chamado crédito consignado, que resultou em uma expansão recorde do crédito a famílias de baixa renda.
Sob seu comando, a inflação caiu de 17,2%, para 5,3% ao ano, enquanto o Ibovespa mais que dobrou.
Se Dilma for eleita, é provável que Palocci rejeite uma volta ao Ministério da Fazenda ou uma nomeação para o Banco Central (BC) e prefira trabalhar nos bastidores como chefe da Casa Civil, disse Carlos Thadeu de Freitas Gomes, um ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio no Rio de Janeiro.
Obstáculos no partido
O papel de Palocci pode incluir ajudar Dilma na batalha contra membros do PT que querem aumentar ainda mais a participação do governo na economia, disse Paulo Vieira da Cunha, que foi diretor do BC até 2008 e atualmente é sócio da Tandem Global Partners em Nova York.
"Palocci é sinônimo de prudência fiscal", disse Vieira da Cunha. "Só não está claro quanto apoio existe para isso dentro de seu próprio partido."
A campanha de Dilma não retornou telefonemas e e-mails da reportagem solicitando comentários.
Palocci, que completa 50 anos um dia após as eleições do dia 3 de outubro, renunciou em março de 2006 depois que parlamentares o acusaram de ter violado o sigilo bancário de uma testemunha numa investigação de propina que envolvia dirigentes do PT.
A testemunha, um caseiro, disse que viu Palocci numa mansão em Brasília em que políticos e lobistas supostamente negociavam propinas e se encontravam com prostitutas.
Palocci nega qualquer ato ilícito. O STF o inocentou no ano passado da acusação de quebra de sigilo bancário.
Ex-marxista
Assim como Dilma, Palocci entrou para a luta armada marxista quando ainda era estudante para combater a ditadura militar. Filho de um artista plástico, ele foi co-fundador do PT com Lula e duas vezes eleito prefeito de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Em maio, Dilma e Palocci viajaram a Nova York para um evento em que a candidata surpreendeu investidores ao discutir uma possível redução da meta de inflação, algo que o próprio Lula se recusou a fazer.
Dilma, 62, disse que era "muito importante" reduzir os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que mais do que dobraram desde 2007.
"O evento foi um divisor de águas e Palocci foi quem orquestrou tudo", declara Freitas. "Era o sinal que o mercado queria de que ela vai seguir um caminho ortodoxo."
Em sua autobiografia, Palocci disse que uma redução forçada da taxa de juros sem aumentar a poupança e a capacidade para investimentos seria "um caminho extremamente arriscado a seguir".
Desafios futuros
El-Erian, que visitou o Brasil no mês passado, disse que o próximo presidente terá de enfrentar desafios antigos, incluindo a elevada carga fiscal do País, limitações orçamentárias e infra-estrutura deficiente.
Se, por um lado, o crescimento econômico maior do que o esperado tornou esses problemas menos urgentes, resolvê-los será mais fácil visto que o setor privado agora está mais confiante, acrescentou.
El-Erian, 52, disse que está "tranquilo" em relação aos investimentos da Pimco no Brasil. Do total de US$ 239 bilhões em investimentos do fundo Pimco Total Return Bond, 2,03% estão aplicados em títulos brasileiros, terceiro maior investimento atrás dos ativos dos Estados Unidos e do Reino Unido.
"Quanto mais os investidores veem Palocci, mais felizes eles ficam em relação à Dilma", disse Urban Larson, que administra cerca de US$ 2,2 bilhões em fundos de ações da América Latina para a F&C Management em Londres. Lula, 64, também elogiou Palocci.
"Devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci", disse Lula em entrevista à revista IstoÉ de 5 de agosto. "Credito uma parte disso aos primeiros dois anos, quando tivemos que comer carvão em vez de filé mignon."
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