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Entrevista

Para o Bird, “desvalorizar o câmbio é estratégia de risco”

Juliana Rangel   (jrangel@brasileconomico.com.br)
20/09/10 20:19


"Na América Latina e Caribe, 60 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2002 e 2008"

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O economista-chefe do Banco Mundial em Washington, o camaronês Célestin Monga, não acredita que os EUA entrarão de novo em recessão e não vê riscos no aumento da dependência americana da China.

Ao comparar o relacionamento entre os dois países, ele cita a dialética do filósofo alemão Friedrich Hegel do "Senhor e o Escravo". "Não estou muito preocupado porque ambos precisam e dependem um do outro", diz.

No Brasil para lançar o livro "Niilismo e negritude", sobre cultura e religião africana, ele prefere não comentar os escândalos recentes de corrupção. Mas diz que o país conseguiu combinar estabilidade econômica com inclusão social nos últimos anos. Sobre países que desvalorizaram o câmbio, diz: "É uma estratégia de risco".

A taxa de desemprego nos EUA está agora em 9,6%, e 14,3% das pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Quando o senhor acha que a economia americana irá se recuperar?

Se eu pudesse prever esse momento com total exatidão, eu seria mais rico que alguns bilionários que têm ilhas no Caribe.

O mercado de trabalho americano continua muito fraco. Desde o início da crise em 2008, mais de 7 milhões de pessoas perderam o emprego, e 8,8 milhões estão trabalhando meio período involuntariamente.

O ritmo de demissões está se reduzindo recentemente, mas o crescimento da criação de vagas continua negativo, o que faz com que a taxa de desemprego esteja perto de 10%. Se você considerar os subempregos, terá taxas bem acima de 17%.

Os preços das moradias subiram e o nível de estresse maior provocado pelos financiamentos explicam o cenário adverso de desemprego. Como a economia americana é muito baseada em consumo, precisamos olhar para as expectativas.

Parece que a confiança do consumidor está caindo nos últimos 12 meses. A capacidade de utilização da indústria cresceu para 74,7%, ou seja, 4,7 pontos percentuais acima do patamar em que estava um ano atrás, mas ainda 6 pontos percentuais abaixo da média registrada entre 1972 e 2009.

E mais: os investimentos nos EUA estão extremamente baixos. Refletindo essas condições, a retomada econômica deverá ser gradual, particularmente quando os estímulos dados forem retirados.

Cresceram os temores de que se a desaceleração continuar a economia americana entrará em recessão novamente. O senhor acredita nisso?

Eu sou de Camarões, um país onde as pessoas são geneticamente otimistas mesmo diante de situações econômicas, políticas e sociais adversas. Temos que ser assim. Se não, cometeríamos suicídio...

Então, sou inclinado a não temer uma recessão nos EUA, mas devo dizer que, com os balanços dos bancos ainda não totalmente recuperados da crise, e com as perdas nos setores comercial e imobiliário, as condições financeiras podem continuar sendo um empecilho ao crescimento, particularmente para pequenos negócios que não têm como acessar os mercados de capitais.

Além disso, a securitização de dívidas privadas continua inexistente e esse era um canal de financiamento de grande importância para a concessão de créditos no período pré-crise. Uma contínua falta de securitização impõe uma restrição crescente ao financiamento e ao crescimento na América.

A intervenção do governo pode certamente ajudar mas, como você sabe, dado o aumento do nível de endividamento, o espaço para fazer manobras é limitado, mesmo para a maior economia do mundo.

Além do mais, com eleições no Congresso que acontecerão em algumas semanas, o calendário político nos EUA poderá não ser favorável a grandes estímulos.

Quais são as suas projeções para o PIB americano neste ano e no próximo?

Mark Twain (escritor americano) denegriu as estatísticas e o "quase místico" poder dos números usando uma citação, que ele atribuiu ao primeiro-ministro britânico do Século XIX Benjamin Disraeli : "Existem três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas!". Pode parecer cinismo, mas é útil ter isso em mente, para que a gente não se empolgue muito com os números.

É claro que eles são muito úteis, mas nunca são capazes de contar a história inteira. O Banco Mundial projeta um crescimento global entre 2,9% a 3,3% em 2010 e 2011, e entre 3,2% e 3,5% em 2012, quando a queda de 2,1% de 2009 seria revertida.

Afrouxamentos monetários e fiscais substanciais foram dados, juntamente com outras políticas aplicadas diretamente nos setores imobiliário e financeiro, o que deu fôlego ao crescimento nos EUA. Mas a demanda privada ainda está frágil e continua bem abaixo dos níveis pré-crise.

Alguns países parecem ter emergido mais fortes da crise de 2008, como Brasil, China, Índia e África do Sul. O senhor acha que teremos um novo contexto mundial?

Sem dúvida. A recuperação da economia global está sendo puxada pelos países emergentes. Agora vivemos em um mundo "multipolarizado", como o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, já afirmou.

A fatia dos países em desenvolvimento no PIB mundial (em paridade de poder de compra) aumentou de 33,7% em 1980 para 43,4% em 2010.

A fatia da Ásia na economia global em poder de compra aumentou de 7% em 1980 para 21% em 2008. Os mercados de ação da Ásia agora são 32% da capitalização dos mercados mundiais, à frente dos EUA, que têm 30%, e da Europa, com 25%.

Poucas semanas atrás, a China ultrapassou o Japão e se tornou a segunda maior economia do mundo. Muito da recuperação no comércio mundial se deve à forte demanda por importações entre os países em desenvolvimento.

Aqui na América Latina e no Caribe, 60 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2002 e 2008, e uma classe média crescente impulsionou as importações a uma taxa de 15% ao ano. A África subsaariana poderá crescer a uma taxa média acima de 6% até 2015, enquanto o Sul da Ásia, onde metade da população pobre mundial vive, poderá crescer em torno de 7% ao ano no mesmo período.

Não é possível resolver as grandes questões internacionais sem Brasil, China, Índia, África do Sul e outras economias emergentes. Aqui estão as boas notícias: para os países ricos, as relações internacionais com países emergentes não são mais apenas um princípio moral de caridade e solidariedade: é algo do seu do próprio interesse.

Países em desenvolvimento agora são novas fontes de crescimento e importadores de bens de capital e produtos e serviços do Norte. Eles representam novos mercados para criação de empregos, aumento de produtividade e crescimento dos países ricos.

Como os países da África foram afetados pela crise?

Com a crise econômica global de 2008, os países da África se sentiram traídos. Na última década, muitos deles tiveram que fazer reformas que foram muito difíceis. Trabalharam duro pela estabilidade macroeconômica e reduziram seus endividamentos.

Fizeram programas de privatizações e abriram setores importantes da economia, como telecomunicações. Eles também reduziram o endividamento do setor público.

Os investidores, tanto domésticos quanto estrangeiros gostaram, e o investimento estrangeiro direto subiu para US$ 53 bilhões em 2008, contra US$ 2,4 bilhões em 1985, antes do início das reformas.

Os países africanos testemunharam um período de crescimento econômico sustentável, apoiado, em grande parte, pelo crescimento das exportações. Mas a crise chegou e afetou essas pequenas economias abertas por meio de vários canais: comércio e fluxo financeiro.

Muitos países sofreram com a demanda menor por seus produtos no mercado global, o que afetou sua balança comercial, as taxas de crescimento, a situação fiscal dos governos.

Outros tiveram baixos níveis de investimentos diretos e remessas. Obviamente, isso penalizou os programas de redução da pobreza e criação de empregos. Mas ganhamos em experiência.

Oscar Wilde disse a frase famosa: "Experiência é o nome que todos são aos seus erros".

Como eles estão se recuperando?

Meu colega Ngozi Okonjo-Iweala sempre surpreende seus ouvintes perguntando o seguinte: "Que economia de US$ 1 trilhão está crescendo mais que o Brasil e Índia entre 2000 e 2010 em termos nominais em dólares e que deverá crescer mais rapidamente que o Brasil entre 2010 e 2015?" A resposta é a África Subsaariana.

A crise levou a uma queda no crescimento da África de 1% em 2009. Mas a região deverá ter uma expansão de quase 4% e até mais em 2010 e 2011, mais rápido que América Latina, Europa e Ásia Central.

As coisa poderiam ser ainda melhores se algumas questões fossem resolvidas. Do lado da demanda, um dos principais itens é a estabilidade cambial.

A apreciação do franco CFA por exemplo, que é a moeda usada por 14 países, sugere perda de competitividade e deverá reduzir o ritmo das exportações.

Com o recente enfraquecimento do euro, os países da CFA vão ganhar alguma competitividade. Mas a questão fundamental de gerenciar o câmbio é de forma sustentável continua em aberto.

Do lado do abastecimento, também existem empecilhos como a adequação da infraestrutura e da regulamentação, do acesso a financiamentos e à qualidade de mão-de-obra.

Felizmente, a mão-de-obra da África esta crescendo, em contraste do que ocorre no restante do mundo. O continente tem mais de 500 milhões de pessoas em idade de trabalho. Até 2040, o número vai exceder 1 bilhão — superior ao da China ou Índia.

Com estratégias apropriadas de melhoria e um bom empurrão em infraestrutura para atingir economias de escala, que poderiam ser financiadas pelos países mais ricos como rentáveis investimentos de risco, a África poderia se tornar um grande polo da economia mundial.

O presidente Lula entendeu isso bem quando promoveu a cooperação Sul-Sul. As empresas públicas brasileiras como Embrapa ou Fiocruz têm excelente experiência técnica e um bom histórico em cooperação internacional. Investir em países em desenvolvimento agora é uma decisão inteligente porque os retornos serão grandes.

Muitos países do mundo, inclusive EUA, estão mais dependentes da China. Há algum risco de bolha na China?

Eu recentemente usei a dialética do "senhor e o escravo" do filósofo alemão Hegel para interpretar a simbiótica relação entre China e EUA.

Muito tem sido dito sobre essa relação fascinante entre as duas maiores economias do mundo mas eu não estou muito preocupado porque ambos precisam e dependem um do outro.

A China é um Mercado indispensável para a maior parte dos produtos americanos, desde agricultura a manufaturados e serviços.

Para dar alguns exemplos: a China foi o maior mercado para a soja americana no ano passado, importando mais de US$ 9 bilhões. No setor de manufaturas, os EUA já exportaram perto de US$ 3,5 bilhões em aeronaves para a China só neste ano, e as exportações americanas de automóveis e peças para a China já cresceu mais de 200%.

Acabo de voltar de uma viagem à China. Sim, existem bolhas em alguns setores, como o imobiliário. Mas, dado o nível de controle da economia, eles conseguirão lidar com isso.

O aumento das taxas de crescimento nas últimas três décadas é um reflexo do surgimento do paradigma da inovação tecnológica. A China adotou um estilo de aproximação pragmático e gradual em duas vias.

De um lado, o governo continua providenciando proteção e empresas não viáveis em setores prioritários, e por outro liberou o investimento privado, as joint-ventures e os investimentos estrangeiros diretos para segmentos de mão-de-obra intensiva.

Enquanto essa estratégia permitiu que a China tivesse estabilidade e crescimento nas últimas três décadas, ela também trouxe uma série de problemas estruturais, particularmente na disparidade entre distribuição de renda, consumo e poupança, e contas externas.

Justin Lin, que é economista do Banco Mundial, é chinês. Eu concordo com sua avaliação de que o país precisa resolver esse desequilíbrio estrutural removendo as distorções no segmento financeiro, recursos naturais e serviços.

Reformas específicas deveriam incluir: a permissão para o desenvolvimento de pequenas instituições financeiras, incluindo bancos locais, para aumentar a oferta de serviços financeiros, em especial, acesso ao crédito para famílias do campo e pequenas e médias empresas de manufaturas e serviços, reforma da previdência para remover o fardo de aposentados do setor de mineração, e um nível apropriado de royalties sobre recursos naturais, e incentivo à concorrência em telecomunicações, energia e setor financeiro.

Alguns economistas criticam o Brasil dizendo que país aumentou seus gastos e elevou a dependência de exportações de commodities. O senhor acha que de fato temos um problema? Quais serão os desafios para o novo governo?

Eu não fiz muitos estudos sobre o Brasil para responder em detalhes. Mas aprendendo com o trabalho de análises da equipe de Makhtar Diop, nosso diretor no Brasil, posso dizer que as políticas econômicas e medidas anticíclicas ajudaram o país.

A crise financeira de 2009 teve um impacto relativo menor, com o país já se recuperando dele. O Brasil deverá crescer bem acima de 6% neste ano. O país tem recursos naturais imensos e um forte potencial de desenvolvimento industrial, mas ainda sofre com uma vala entre pobres e ricos.

Problemas sociais inovadores e um crescimento maior da inclusão nos últimos anos foram gradualmente reduzindo a desigualdade. Meu palpite é que essa estratégia que combina estabilização econômica, incentivos ao crescimento e inclusão social vai continuar.

Recentemente, estamos vendo no noticiário alguns escândalos envolvendo membros do governo e pessoas muito próximas a Dilma Rousseff, candidata do presidente Lula que lidera as pesquisas de intenção de voto. Como o mundo vê isso? Pode haver consequências econômicas para o país?

Eu sei que os economistas do Banco Mundial às vezes são caricaturados como especialistas em tudo, mas eu luto contra essa doença. Seria presunçoso e até mesmo inapropriado da minha parte fazer comentários públicos sobre política interna e assuntos de governo no Brasil dias antes das eleições presidenciais.

O real tem se apreciado muito fortemente. O senhor vê nisso um problema para o país?

Vou declinar de comentários sobre taxas de câmbio. Só posso dizer que meu orientador em minha tese de graduação foi Rudi Dornbusch, um economista que é bem conhecido por todos os profissionais do Brasil.

Aprendi com ele a importância de uma política monetária estável e crível, de forma que ela seja tão chata e desinteressante que os participantes do mercado não tenham chances de especular. Mas a manutenção da competitividade externa também é muito importante, especialmente para uma economia aberta como o Brasil, que se beneficia enormemente de oportunidades do mercado global.

Brasil tem um BC respeitado com excelentes profissionais.

O Japão depreciou o câmbio e a Colômbia também, de certa forma. E se o Brasil fizer o mesmo?

A economia global enfrenta muitos riscos importantes no médio prazo, incluindo a redução de fluxo de capitais, altas taxas de desemprego e capacidade ociosa excedendo 10% em muitos países. Dados recentes de consumo tiveram recordes negativos no Japão e também na zona do Euro.

Na realidade, a despeito de ser lenta e desigual entre economias da Zona do Euro, a recuperação ainda é muita incerta. Em parte, por causa da consolidação fiscal e das dificuldades enfrentadas pelo mercado de crédito.

Não seria uma surpresa muito grande se alguns países interviessem no câmbio em uma escala muito substancial para limitar a pressão das forças do mercado sobre sua moeda. Mas é claro que essa é uma estratégia de risco.

Sim, uma moeda subvalorizada ajuda o setor exportador, mas também significa importações mais caras para o mercado local. Essa estratégia reduz o poder de compra das famílias, e pode ser injusta com outros países, levando à retaliação, o que obviamente não é bom para nenhum país.

Quais as perspectivas para a América Latina? O Brasil pode impulsionar essas economias?

Meu tio, que é do ramo imobiliário, sempre diz que você nunca deve comprar uma casa, mas a vizinhança. A metáfora se aplica às economias em desenvolvimento.

Ao mesmo tempo em que a globalização cria oportunidades para pequenas economias alcançarem as benesses do mercado mundial, estar localizada em meio a vizinhanças dinâmicas também dá excelentes oportunidades para o desenvolvimento regional.

Essas economias precisam ter uma estratégia real de melhoria de seu parque industrial e tecnológico, considerando suas vantagens comparativas. O fato de o Brasil estar crescendo por um longo tempo leva a melhores salários, o que eventualmente faz com que ele seja menos competitivo em determinados setores.

Quando isso acontece, com salários mais baixos, os países vizinhos podem atrair essas empresas que terceirizam mão-de-obra para manter suas margens de lucro.

Então, o sucesso do Brasil é também, eventualmente, o sucesso do Uruguai ou da Bolívia. Já houve muita conversa sobre os Tigres Asiáticos.

Talvez seja hora de pensar sobre "os jaguares da América Latina". Mas para a América Latina reivindicar seu lugar no cenário mundial, o Brasil precisa aumentar ainda mais seu papel como líder.


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