Ao utilizar uma golden share para impedir a venda da Vivo à sua sócia Telefónica, ontem em assembleia geral em Lisboa, a Portugal Telecom levantou uma briga boa com a Comunidade Europeia.
Guardiã do livre fluxo de capitais entre os países-membros, a CE já avisou que vai retaliar essa atitude em reunião prevista para o dia 8 em Bruxelas.
Afinal, uma empresa de um país-membro foi literalmente impedida de adquirir um bem de sua sócia em outro país- membro por exclusiva intervenção do governo da primeira.
Trata-se de negócio debatido à exaustão e que chegou a contar com a anuência de 74% dos acionistas presentes à assembleia, que entenderam que a terceira proposta feita pela Telefónica na véspera, de € 7,15 bilhões, era suficientemente viçosa por representar peso superior a 90% de capitalização bolsista de todo o grupo PT.
Não é novidade a relação mais que estreita que os governos agasalham com as operadoras de telecomunicações.
Embora privatizadas e cotadas em bolsas de valores, essas antigas estatais exercem uma atração inexplicável sobre os governantes.
Uma negociação pura e simples parece ser encarada como flanco aberto na soberania do país que vende a empresa.
Foi assim com a Holanda, que teve receio de negociar com a Alemanha, um país vizinho e mais poderoso economicamente, como aliás parece ser o caso da Espanha com Portugal.
Também o governo italiano se retraiu quando a mexicana Telmex tentou negociar a Telecom Italia, que acabou entregando parte de seu capital à Telefónica, espanhola que soube driblar a reação unindo-se a dois bancos italianos.
O Brasil não difere desse comportamento. Depois de facilitar a formação da Oi, derrubando as regras que impediam a empresa de atuar em duas regiões, esse mesmo governo manteve no bloco de controle representantes como o BNDES e a Previ, capazes de sustar uma possível negociação com empresa estrangeira.
O que espanta, aqui, é que a Vivo não atua em Portugal, ela é só controlada pela portuguesa, e pela metade.
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Thais Costa é editora executiva do Brasil Econômico
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