Formatura da primeira turma de administração da Faculdade Zumbi dos Palmares, em 2008
Comunidade
Com apoio do Bradesco, Carrefour, Mercedes, Ford e Nestlé, instituição inova ao difundir valores da negritude.
O termo inovação social é antigo - há quem diga que date do tempo da criação da própria ideia de Estado, como uma das primeiras tentativas da sociedade organizada de sanar suas demandas com a exploração dos recursos naturais.
E não há consenso sobre sua definição, apesar de que, genericamente, signifique todas as estratégias, conceitos e organizações que atendem necessidades sociais, sejam elas de condições de trabalho, educação ou desenvolvimento comunitário.
Dentro deste formato, poucas instituições cumprem tão bem o papel de inovador social quanto a Faculdade Zumbi dos Palmares.
Criada em 2003 a partir do trabalho de um grupo de profissionais liberais de classe média, preocupados com o tema da inserção de jovens negros na sociedade, a instituição de ensino reúne hoje diversos apoiadores e patrocinadores.
São grandes nomes como Bradesco, Carrefour, Mercedes, Ford e Nestlé, que veem no modelo criado pela Zumbi uma saída digna para a dívida histórica da sociedade para com a população negra.
O reitor José Vicente, um advogado especializado em relações internacionais, com doutorado em Educação, conta que, inicialmente, outras alternativas foram discutidas, como abertura de um cursinho pré-vestibular.
"O problema é que depois de oito meses neste primeiro projeto, entendemos que por conta do gargalo entre a educação recebida por nossos alunos e seus concorrentes, demoraríamos muito para conseguir encaminhá-los para faculdades conceituadas", conta. Isto foi no início dos anos 2000, quando foi fundado o Instituto Afro Brasileiro de Ensino Superior (Afrobras), mantenedor da faculdade.
Os militantes não desistiram. Por meio do instituto, partiram para a busca de bolsas de estudos para os alunos dos então cursinho, o que levou a mais de mil jovens serem beneficiados. A partir daí, o caminho para se tornar uma instituição de ensino superior foi claro: "Se tínhamos capacidade para gerir mil bolsistas, porque não investir em uma faculdade de qualidade?", lembra Vicente.
A Zumbi dos Palmares é a primeira faculdade do país idealizada por negros, tendo como foco a cultura, a história e os valores da negritude - 90% dos alunos são negros autodeclarados. É também a primeira que tem em sua matriz curricular o compromisso da implantação da lei 10.639/2003 que institui como obrigatório o ensino de História da África e Afrobrasileira em todos os níveis de ensino.
A instituição oferece hoje os cursos de Administração, Direito (reconhecido pela OAB - Ordem dos Advogados do Brasil), Tecnólogo em Transportes Terrestre e Pedagogia e trabalha apenas com mensalidades sociais, na faixa de R$ 300 - que garantem o equilíbrio mínimo da instituição, além das contribuições corporativas e públicas, como o espaço da escola cedido pela Prefeitura da São Paulo.
A primeira turma se formou em 2007 e teve o então Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por patrono. Em 2008, foi a vez de Fernando Henrique dar seu apoio à instituição, apadrinhando a segunda turma de Administração.
"Uma boa propaganda da nossa causa também faz parte da estratégia", comemora Vicente, que tem hoje 1,7 mil estudantes em seus cinco cursos. E muitos desses alunos - 50% do total -, já tem emprego garantido nas empresas parceiras da faculdade, garante o reitor, que tem planos agressivos para ampliar a oferta de cursos.
Está na mira de Vicente abrir novos cursos nas áreas de energia, infraestrutura, logística e transportes. "Queremos focar em áreas que o Brasil vai demandar muitos recursos nos próximos anos", diz.
Ele acrescenta que, apesar das iniciativas do governo, como o Programa Ciências sem Fronteiras, lançado em julho do ano passado, pelo governo federal, ainda é muito difícil inserir os alunos pobres na área de pesquisa.
O programa busca promover a consolidação, expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio de alunos de graduação e pós-graduação e da mobilidade internacional e para isto, prevê a concessão de até 75 mil bolsas em quatro anos.
"Só que para conseguir estas bolsas o aluno tem que ter 600 pontos no Enem, além de inglês, coisas que os alunos pobres não têm. Isto não vai promover a inserção", conta. "Agora, imagine se 10% dessas bolsas fossem voltadas para alunos negros? Poderíamos formar em poucos anos, uma nova geração de intelectuais."
Os sonhos de Vicente estão em linha com as discussões sobre a questão do mito da democracia social no Brasil. "O Brasil tem de entender que racismo produz desigualdade, e só combatendo o racismo, vamos reverter esta situação", diz.
E o trabalho é gerar um ciclo virtuoso: combater sem trégua, fomentar a formatação profissional da comunidade negra, lutar por mais vagas nas universidades, gerar um grande contingente de homens e mulheres preocupados com a desigualdade e exclusão na sociedade brasileira, capazes de mobilizar esforços e recursos no sentido de multiplicar o efeito desta mudança. E neste processo, inovação é pensar que "sem educação, não há liberdade".
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