"A China incomoda por causa dos subsídios que pratica", afirma Jorge Gerdau, presidente da Gerdau
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A participação do aço importado nas compras da indústria consumidora do insumo no Brasil oscilou entre 10% e 12% no ano passado; em 2005, esse percentual era de cerca de 5%.
A expectativa de elevação dos preços dos produtos siderúrgicos, como consequência de uma disparada das cotações do minério de ferro, trará em 2010 para a indústria siderúrgica nacional a incômoda ameaça de aumento das importações por parte dos setores consumidores, preveem os analistas.
De acordo com os cálculos de Alexandre Gallotti, analista da Tendências Consultoria, a alta dos produtos siderúrgicos verificada desde 2004, impulsionada pelo aumento da demanda ou por elevação dos custos internacionais, produziu uma marca na balança comercial do setor siderúrgico.
"Em 2005, a participação do aço importado no atendimento à demanda nacional foi de 5%. Acreditamos que em 2009 essa participação tenha dobrado, oscilando entre 10% e 12%", diz Gallotti.
"Há mais ou menos dois anos, esta mesma situação de alta dos produtos siderúrgicos foi vivida pelo setor e a indústria automobilística tentou, via importação, pressionar o setor para reduzir as altas", lembra a consultora Renata Ferraz de Toledo Machado, da MB Associados.
"Isto poderá se repetir em 2010, dependendo do tamanho do reajuste efetivado pelas siderúrgicas". A consultora acrescenta que o cenário mundial de sobreoferta de aço, mesmo com recuperação em relação a 2009, poderá facilitar a importação.
Em 2009, a questão da importação do aço provocou uma polêmica. Diante dos duros reflexos da crise financeira internacional sobre a indústria siderúrgica, o governo federal decidiu reabilitar alíquotas de importação sobre o aço que variam de 12%, na maioria dos produtos, a 14%.
A elevação de barreiras à entrada do aço importado causou veementes protestos dos segmentos consumidores - indústria automobilística e construção civil, principalmente -, que viram na iniciativa uma senha para a elevação dos preços no mercado doméstico.
Alguns meses após a revitalização das alíquotas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ameaçou zerar novamente as alíquotas diante de sinais de elevação dos preços domésticos do aço.
A questão não é simples. Se por um lado os segmentos consumidores se veem diante da difícil tarefa de assimilação e repasse para os seus custos, de outro o segmento siderúrgico se queixa de uma competição externa que considera desleal.
O principal concorrente é o aço produzido na China, que chegou a custar a metade do valor do aço brasileiro. Há o entendimento de que, diante de estoques abarrotados, os chineses estão promovendo uma desova a preços de custo.
O vice-presidente de Negócios da Usiminas, Sérgio Leite, explica que os produtos siderúrgicos da Rússia, Ucrânia e da China responderam, em 2009, por boa parte das importações brasileiras, graças aos preços abaixo do custo praticados por esses países.
"Nessa questão, deve ser considerado que a China, por exemplo, não pratica uma economia de mercado e que conta com uma presença estatal grande, com muito subsidio", diz Leite. Outra queixa é a de que a China não oferece, no jogo do comércio internacional, contrapartidas para a venda de seu aço ao Brasil.
Há também grande questionamento à qualidade do aço chinês, considerada inferior à do produto brasileiro.
Um componente essencial dessa disputa é o fato de o aço chinês se apresentar também como um concorrente da produção brasileira em alguns mercados. No ano passado, as vendas do aço chinês na América Latina apresentaram crescimento superior a 150%. "A China incomoda por causa dos subsídios que pratica", afirma Jorge Gerdau, presidente da Gerdau.
"Para enfrentar esse tipo de concorrência, surgem processos antidumping. Na área de inox já entramos com processos. Se esses processos vão se ampliar vai depender de como o mercado vai se comportar".
Diversificação e concentração
Paralelamente às disputas comerciais, o setor siderúrgico nacional deverá continuar a viver um intenso processo de transformação. De acordo com Renata Machado, da MB Associados, a expectativa é de que a diversificação das atividades das empresas de siderurgia, e principalmente a "integração para trás" - a entrada no setor de mineração - são fenômenos que deverão continuar em 2010 e nos próximos anos.
Além disso, acrescenta Tereza Fernandez, também da MB Associados, o setor é conhecido por ter sua margem "espremida" tanto por seu fornecedor de matéria-prima quanto por consumidores.
Entre os processos de diversificação que ocorreram no segmento de siderurgia pode ser mencionada a entrada da CSN no setor de cimento. A companhia instalou em Volta Redonda (RJ) uma nova unidade de negócios, a CSN Cimentos, que produz um tipo de cimento específico para a construção civil em cidades litorâneas.
A estratégia da companhia foi aproveitar sinergias existentes entre as duas atividades: 70% da escória produzida por seus altos-fornos estão sendo utilizados como ingrediente para a fabricação de cimento.
A Usiminas, por sua vez, optou pela construção -adquiriu 30% de participação do capital das empresas de construção civil Codeme Engenharia e Metform.
A diversificação não é um fenômeno restrito às siderúrgicas. A Vale também deu passos importantes nesse sentido. A companhia adquiriu ativos da Bunge - que detinha 42% das ações da Fosfértil, líder em fertilizantes no Brasil.
A companhia já anunciou que está sintonizada com a expectativa de crescimento da demanda mundial por alimentos - o que demandará uma produção maior de minerais utilizados na indústria de fertilizantes.
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