Henrique Meirelles, presidente do BC, tem declarado que tem um ‘plano de voo” para a condução da política monetária e controle inflacionário
Comunidade
Às vésperas do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), o mercado está dividido sobre como será iniciado o ciclo de aperto: com elevação de 0,5 ponto percentual (p.p.) da Selic ou de 0,75 p.p.
Apesar da dúvida, a maioria defende uma intervenção mais severa na reunião que tem início amanhã (27).
A principal justificativa é a de que houve uma deterioração relevante das expectativas de inflação nas últimas semanas, aliada à expansão da atividade acima do esperado, com recordes de vendas do varejo, produção industrial e criação de empregos.
Por meio da ata da última reunião, divulgada em março, o Banco Central (BC) deu como certo que pretende elevar neste mês a taxa básica de juros da economia, hoje em 8,75% ao ano.
Para os economistas, se a autoridade monetária não agir de forma mais agressiva agora, a expectativa de inflação pode continuar em elevação, o que seria prejudicial dentro de um sistema de metas de inflação.
Um aumento da Selic para 9,5% ao ano, portanto, surpreenderia o mercado e ajudaria o BC a conter essa expectativa de alta da inflação, defende o economista-chefe do BNP Paribas, Diego Donadio.
"O risco de uma pressão inflacionária está muito mais presente agora do que no passado, e o Banco Central está de olho nisso", avalia Marcelo Salomon, economista-chefe do Barclays.
Ele identifica a necessidade de o BC reancorar as expectativas, e adverte que um aumento de 0,50 ponto poderia levar os agentes de mercado a continuar vendo risco de inflação, cenário que pode ser realizado. "O custo de reparação, nesse caso, será maior."
A reação do mercado financeiro será negativa, caso o BC não identifique a necessidade de readequar seu plano de voo, salienta o economista do M. Safra Marcelo Fonseca, que defende o aperto de 0,75 ponto.
Plano de voo
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem declarado pessoalmente ou por meio de documentos oficiais, como o relatório trimestral de inflação, que a autoridade tem um ‘plano de voo" para a condução da política monetária e controle inflacionário.
Essas declarações, na visão do mercado, indicariam um aumento da Selic de 0,5 ponto. Com base nesse argumento, alguns economistas não acreditam que o BC seja tão agressivo na elevação, e esperam que a Selic fique em 9,25% ao ano.
Para o economista-chefe do Banco Safra, Cristiano Oliveira, a tendência é de que os membros do Copom prefiram seguir a programação original descrita no relatório de inflação e elevar a taxa básica de juros em 0,50 ponto em abril, embora defenda que o mais adequado seja um aperto de 0,75 ponto porcentual.
"O BC não gosta de tomar decisões tão drásticas. Prefere comunicar, ainda que de maneira disfarçada, o que pretende fazer", analisa Francisco Pessoa, da LCA Consultores.
Esse seria, em sua avaliação, o único fator que conspiraria para uma alta de 0,5 ponto.
Inflação
É consenso entre os economistas que, independentemente do aperto determinado pelo Copom, será difícil conter a escalada da inflação projetada para 2010, que deve encerrar acima do centro da meta, estabelecida em 4,5% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Segundo projeções do economista do Santander Maurício Molan, o IPCA deve fechar o ano em 5,5%, e encerrar 2011 em 5%. Ele defende um ciclo de aperto de 0,75 ponto percentual das duas próximas reuniões, seguido por três elevações de 0,5 ponto e um final de 0,25 ponto, de forma que a Selic fecharia o ano em 12%.
Já na visão de Juan Jensen, da Tendências Consultoria, a partir do segundo trimestre, a inflação deve desacelerar, o que dará fôlego para a autoridade monetária implementar seu processo de ajuste tendo em vista a inflação de 2011. Por isso, ele defende uma alta de 0,5 ponto.
"O Banco Central quer ancorar as expectativas de inflação e esse horizonte não demanda um choque de política monetária. O foco é 2011."

CONFIRA ABAIXO A OPINIÃO DE DEZ ANALISTAS CONSULTADOS PELO BRASIL ECONÔMICO:
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Diego Donadio - Analista Sênior para América Latina do BNP Paribas "Desde a última reunião do Copom, quando chegaram claramente a um consenso sobre aumento de juros, houve uma deterioração significativa das expectativas de inflação, ao mesmo tempo em que a atividade econômica surpreendeu o mercado. Isso provocou uma revisão de crescimento para o ano, aliada a um cenário de deterioração de expectativas. Se o BC não agir de forma um pouco mais agressiva agora, essa deterioração de expectativa de inflação pode continuar, o que é muito prejudicial num regime de metas de inflação. Um aumento um pouco mais elevado ajudaria a autoridade monetária a conter essa expectativa." |
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Juan Jensen - Sócio da Tendências Consultoria "Achamos que o BC não vai surpreender dando uma alta maior. A principal razão é que o foco do Banco Central, em termos de política monetária, é de 12 meses, e a inflação de 2011. No segundo trimestre a inflação deve vir bem mais tranquila, diferente do primeiro, o que deve dar um alívio à autoridade monetária para implementar esse processo de ajuste. Dentro do horizonte de política monetária que o BC quer ancorar tanto a inflação quanto as expectativas, ele não demanda um choque dessa política." |
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Alex Agostini - Economista da Austin Rating "A inflação tem uma banda para flutuar, justamente para dar mobilidade à política monetária. Inflação de até 5,5% é aceitável para uma economia que passa por um período de reaquecimento. Com um aumento de 0,50 p.p., o BC tem um pouco mais de tempo para administrar a política monetária, inclusive ter fôlego para subir gradativamente os juros sem onerar a economia brasileira. Seria uma sinalização concreta de que o processo de alta de juros se iniciou, mas que o BC não vê nenhum problema maior com inflação, principalmente para 2011." |
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Cristiano Oliveira - Economista-Chefe do Banco Safra "Apesar de julgarmos que iniciar o ciclo de alta dos juros com 0,75 ponto porcentual seria o mais adequado, consideramos que os membros do Copom vão preferir seguir a programação original descrita no relatório de inflação, que nos parece que seja de elevação de 0,50 p.p.. É bastante provável que ele siga a programação original, mas talvez tenha de fazer um ciclo mais extenso do que tinha originalmente imaginado. Se o BC começasse a subir mais os juros já no começo do ciclo de aperto, isso faria com que as expectativas convergissem mais facilmente para a trajetória de metas ao longo dos próximos meses." |
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Marcelo Fonseca - Economista-Chefe do M. Safra "O plano de ação original do BC contemplava aumento de 0,50 ponto porcentual, mas confirmou-se um quadro inflacionário mais grave do que o do plano inicial. A economia dá sinais múltiplos de superaquecimento do nível de atividade e a deterioração não se limitou à atividade econômica, teve continuidade na expectativa de inflação, então temos um quadro bastante convincente de que o BC tem de reavaliar o plano inicial. Haveria uma reação muito negativa dos agentes econômicos caso o BC não identificasse a necessidade de readequar o plano, com riscos de deteriorações muito graves na trajetória de expectativa de inflação." |
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André Lóes - Economista-Chefe do HSBC "Infelizmente, o tom das declarações do BC indica que a alta da Selic será de 0,50 p.p.. O ideal seria que o Copom elevasse a taxa de juros em 0,75 p.p. porque as expectativas estão muito deterioradas e o mercado está com a sensação de que o BC atrasou o início da subida. Se o BC aumentasse a Selic em 0,75 p.p. surpreenderia positivamente, e numa situação em que as expectativas vêm se deteriorando muito rapidamente é sempre bom surpreender, no sentido de fazer um ajuste mais concentrado do início." |
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Francisco Pessoa - Economista da LCA Consultores "Dado o ritmo da inflação corrente, não seria necessária uma elevação da Selic de 0,75 p.p., mas com as expectativas se deteriorando bastante, achamos que o BC deve elevar a taxa de juro em 0,75 p.p.. Conta a favor de uma alta de 0,50 p.p. o fato de o BC não gostar de tomar atitudes muito drásticas, ele gosta muito de comunicar o que vai fazer, ainda de que maneira disfarçada. Tirando isso, em função das expectativas de inflação, acreditamos num aumento de 0,75 p.p.." |
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Eduardo Velho - Economista-Chefe da Prosper Corretora "A economia está crescendo muito acima do que o BC esperava e a alta da inflação em maio pode surpreender. Concordamos que o ciclo de aperto vai ser longo, mas no curto prazo a inflação tem de desacelerar mais rapidamente, pois o BC não pode ficar esperando convergir para o centro da meta. Esta reunião deve ser muito dividida, mas acho que um aumento da Selic de 0,75 p.p. seria muito bom para o mercado, seria encarado como uma decisão bem técnica, e não política." |
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Marcelo Salomon - Economista-Chefe do Barclays "Estamos vivendo um momento em que a atividade da economia está forte, e o risco de uma pressão inflacionária, muito mais presente que no passado. O BC está de olho nisso. Há uma necessidade de reancorar as expectativas de inflação, e isso terá um custo muito maior se a elevação não começar forte agora." |
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Flávio Serrano - Economista Sênior do BES Investimentos "O BC vem se pontuando por decisões técnicas. Acreditamos que ele será fiel ao plano estabelecido, como foi em março, então imaginamos que a elevação da Selic será de 0,50 p.p.. Mas na nossa avaliação, uma alta de 0,75 p.p. seria mais eficiente para segurar a deterioração da expectativas de inflação. Ela não cederá o suficiente no curtíssimo prazo e vai demorar um certo tempo para o mercado ficar mais tranquilo quanto à inflação. Uma alta de 0,75 p.p. já neutralizaria esse movimento." |
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