Quem sobrevoa a região de Paragominas, no Pará, pode observar a sucessão de focos de fumaça, que em determinadas épocas do ano chegam a exigir que os pilotos façam desvios pelo trajeto.
Estimulados pela demanda das siderúrgicas instaladas no norte do país, produtores rurais mudam de atividade, construindo fornos para a produção do carvão vegetal, correndo risco de perder o crédito agrícola e sofrer pesadas multas. A matéria-prima, claro, são as árvores da floresta amazônica.
Esse processo se repete e evolui à medida que cresce a presença do Brasil no mercado global de commodities minerais. Cada novo balanço otimista do setor representa milhões de árvores perdidas ao longo do ano.
Assim, o que o país supostamente ganha em uma ponta do negócio já perdeu na primeira etapa do processamento do minério logo após a extração.
Como parte do ciclo da insustentabilidade, pode-se observar o surgimento de doenças pulmonares e outros males sociais, como a evasão escolar de adolescentes, recrutados para ajudar a família no trabalho das carvoarias.
Algumas iniciativas, como o programa Município Verde, lançado em setembro de 2011, tentam conter esse processo, mas a maioria se destina a estimular negócios que substituem a atividade madeireira predadora, com técnicas de manejo sustentável e a contenção da pecuária.
Esses projetos, iniciados em 2008, têm produzido resultados, e Paragominas saiu da lista dos municípios que mais desmatam na Amazônia. Mas a extensão de seu território, quase equivalente ao de Sergipe,dificulta a extinção do desmatamento.
Como ocorre nos projetos bem sucedidos, a busca de sustentabilidade na produção de aço, intimamente relacionada às carvoarias do Pará, depende de planos de negócio que comprovem o valor da floresta em pé.
Para o produtor, tem pouca validade o discurso ambientalista se ele não for convencido, na prática, do valor monetário dos serviços florestais. E programas como esse dependem essencialmente de quem compra o carvão.
Infelizmente, essa ainda não é a realidade predominante. No site que a Siderúrgica Norte Brasil S.A. (Sinobrás) mantém na web, por exemplo, as exigências para as carvoarias se resumem ao cumprimento das leis trabalhistas, uso de equipamento de proteção individual, criação de áreas de vivência e de um setor de fiscalização.
Nenhuma referência à origem da matéria-prima para o carvão nem à adequação da atividade à legislação ambiental. A Sinobrás tem seus fornecedores em Paragominas, Rondon do Pará e Ulianópolis, onde é grande o esforço por mudanças nas práticas de negócios.
Os projetos de inserção da indústria de aço em iniciativas a favor do ambiente se concentram nas usinas, com processos mais limpos e medidas como o reaproveitamento de escória, reciclagem e economia de água.
No entanto, é preciso começar na origem. A extrema dependência que as grandes siderúrgicas têm dos pequenos fornecedores de carvão é um empecilho, embora se deva registrar que a situação melhorou muito nos últimos dez anos.
Para merecer o selo de "aço verde", o produto precisa nascer limpo dos crimes que ainda se cometem contra a floresta amazônica.
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Luciano Martins Costa é jornalista e escritor, consultor em estratégia e sustentabilidade
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Parece praga! Toda matéria que toca no assunto da produção de carvão vegetal coloca na mesma sacola os bons produtores junto a contra-ventores. O papel da imprensa deve trazer a realidade para a sociedade o que não ocorre com o carvão.
A sociedade precisa saber que parar de desmatar é utopia porque a demanda por aço cresce acompanhando a necessidade da população. Não há como parar de aproveitar a madeira nativa sem plantar. Mudar de opção para o carvão mineral trará um prejuízo ambiental muito maior. O mundo utiliza somente 20% de carvão vegetal.
É preciso criar um novo panorama de consumo que é o grande vilão da demanda de aço. Ex. Vc aceitaria re-utilizar bisturis e agulhas descartáveis, ou prefere que nossos aparelhos domésticos tenham a mesma durabilidade de 40 anos atrás?
O discurso é sério e muito importante. Pena que a imprensa trata do assunto como matéria sensacionalista e não ataca o cerne da questão que está ligado ao processo de consumo desenfreado criado pelos EUA.. ha muito tempo...
Conforme foi dito no artigo, tem sido grande o esforço por mudanças nas práticas de negócios, mas a produção de aço ainda está associada à poluição e ao desmatamento . Claro que há os bons modelos, mas eles só se consolidam quando existe a percepção do valor da floresta em pé. O resultado econômico em geral precede a tomada de consciência. Áreas degradadas estão recebendo o plantio de árvores para produção de carvão, o que não recria a diversidade original mas serve como paliativo, pois ajuda a combater a erosão e o empobrecimento da terra. O caminho é longo e exige realismo. Não há como reduzir o consumo, mas pode-se disciplinar a produção. Na mesma região do Bico do Papagaio há exemplos edificantes de manejo florestal sustentável, o que demonstra que há soluções viáveis. Luciano Martins Costa
Caro Luciano, só uma observação, o Programa "Municípios Verdes", do governo do Estado do Pará foi lançado no dia 23 de março de 2011, dia em que Paragominas comemorou um ano da saída da lista dos municípios que mais desmataram a Amazônia. O Projeto "Paragominas Município Verde" nasceu em março de 2008. A título também de informação, a prefeitura local não vai mais renovar NENHUMA licença de operação para carvoarias, mesmo que elas provem por "A mais B" que a origem da madeira é "limpa", ou seja, em Paragominas, não haverá atividade carvoeira legalizada. Falta consciência das Siderúrgicas para mudarmos essa situação que você escreveu no seu texto. E falta gente pra falar (principalmente)