Existe uma estranha semelhança entre o comportamento do ex-ditador argentino Leopoldo Galtieri e do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Em 1982, Galtieri conduziu a Argentina - à época sob uma ditadura militar e com a economia em frangalhos - a uma guerra suicida contra a Inglaterra pela posse das Ilhas Malvinas.
Não havia, conforme sempre se soube, motivo real para a deflagração do conflito. Tudo poderia ter sido resolvido com bom senso.
Mas Galtieri, como bom ditador que era, achou por bem transformar um incidente causado por um grupo de operários argentinos que trabalhava numa estação baleeira nas ilhas da região num problema diplomático de grandes proporções.
A situação ficou incontrolável, ninguém cedeu e a Inglaterra reagiu. O resultado foi a morte de centenas de soldados e a queda de um governo apodrecido pela má gestão da economia e pela falta de legitimidade política.
Essa comparação é pertinente diante do que se vê na Venezuela neste momento. O país não precisava ter reagido da forma destemperada que reagiu diante das evidências de que açoita bases das Farc em seu território. Pego em flagrante, pôs a culpa no país vizinho, que é a vítima da ação dos terroristas.
A iniciativa de rompimento de relações diplomáticas com a Colômbia, que está às vésperas de uma mudança de governo, só se justifica pela necessidade de criar um fato para tentar minimizar os efeitos da crise econômica em que o país (que até outro dia esbanjava dinheiro) mergulhou nos últimos tempos.
É o tipo de situação que a gente sabe como começa, mas que não pode prever como termina. O Brasil ganharia muito se adotasse uma postura mais firme nesse e em outros episódios.
O princípio deve ser: em dúvida, que se apoie as democracias. Brasília deveria se espelhar no caso do ex-primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain que, no final dos anos 1930, fez concessões à ditadura de Hitler e, antes que se desse conta, foi traído em sua boa-fé.
Qualquer democracia perde quando dá crédito e confia em uma ditaduta.
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Ricardo Galuppo é diretor de redação do Brasil Econômico
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