Ticker Bolsa 1

Ticker Bolsa 2

Arnaldo Luiz Corrêa

Etanol: uma visão míope

16/12/11 07:35 | Arnaldo Luiz Corrêa - Gestor de riscos, especializado em commodities agrícolas, e diretor da Archer Consulting



Collapse

Comunidade

Partilhe: del.icio.us   Digg   Facebook   TwitThis   Google   Mixx   Technorati  
Collapse

Notícias do mesmo autor

A produção de etanol no Brasil está se tornando insuficiente para atender a demanda potencial de etanol no país. Esse ano mesmo, tivemos que importar o produto dos Estados Unidos para fazer frente à necessidade de consumo.

Nos últimos três anos, a média anual de crescimento do consumo de combustíveis no Brasil foi de 7,39%. Nos últimos doze meses, cresceu 3,83% - quase 1,7 bilhão de litros no total. Devemos encerrar 2011 com um consumo total de combustível de 46,2 bilhões de litros.

Essa disparidade entre produção e consumo, gerou a celeuma discussão de quem é a culpa. O governo coloca a culpa no setor, porque os "usineiros não cumpriram seu papel" - dizem alguns burocratas.

Entretanto, com a política míope do governo, acenando com o retorno intervencionista do morto-vivo Instituto de Açúcar e do Álcool e a total falta de transparência para com o investidor, não há como haver crescimento sustentado. Justamente no momento em que o setor se moderniza e agrega novos participantes com poder de caixa para promover a expansão necessária.

Pergunto: quanto o país perde no longo prazo pelo, ora descaso, ora interferência, ora a combinação sórdida desses dois ingredientes?

Se assumíssemos um cenário que combinasse a mistura de etanol anidro em 18% na gasolina, o crescimento da venda de veículos em 2% ao ano e a escolha por etanol por parte dos proprietários de carros flex em 55%, o Brasil chegaria, à safra 2019/2020, com uma necessidade de moagem beirando 900 milhões de toneladas.

Porém, para alcançar esse patamar, o setor precisaria alocar investimentos da ordem de US$ 45 bilhões na construção de pelo menos 40 novas usinas em apenas oito anos.

Só assim, em 2020, atenderíamos a um consumo estimado de 83,4 bilhões de litros de combustível, dos quais 49,8 bilhões seriam etanol e 33,6 bilhões gasolina A - que juntos abasteceriam uma frota próxima dos 48 milhões de veículos, sendo 72% deles flex.

Infelizmente, esse quadro (estimativas da Archer Consulting, usando dados da ANFAVEA, Bioagência e Sindipeças) é demasiado róseo, dada a falta de planejamento de longo prazo e miopia estratégica do governo, que fazem os investimentos desaparecer.

Muitos usineiros e produtores de cana acreditam que esse lamentável estado de coisas vai nos levar ao sepultamento do etanol hidratado e o Brasil passará então a ser somente um produtor de anidro para atender a mistura do combustível à gasolina.

Na somatória desse período (até 2019/2020), o Brasil iria consumir 60 bilhões de litros a mais de gasolina, substituindo 100 bilhões de litros de etanol que deixariam de ser produzidos, o equivalente a 1 bilhão de toneladas de cana.

Quantos empregos diretos e indiretos são gerados por 1 bilhão de toneladas de cana? Qual o custo para o meio-ambiente da substituição de 100 bilhões de litros de combustível verde renovável por 60 bilhões de litros de gasolina? Qual o custo para a saúde? Qual o custo para o bolso do contribuinte, considerando que o Brasil importa gasolina mais cara do que vende na bomba dos postos de combustível?

O governo parece acertar na receita de bolo de como matar um setor pujante como é o sucroalcooleiro. Os ingredientes abundam: descaso, miopia e falta de planejamento estratégico.

----------------------------------------------------------

Arnaldo Luiz Corrêa é gestor de riscos, especializado em commodities agrícolas, e diretor da Archer Consulting. Escreveu o livro "Derivativos Agrícolas", publicado pela Editora Globo.


Comentários

Brito, Reife - PE | 16/12/11 09:03
Nada no Brasil ainda é tão confiável. O que dizer do GNV?


Guilherme Lessa, Rio de Janeiro | 16/12/11 13:35
Falou, falou e não disse nada.

Disse sim: Miopia do governo. E daí?

Mas não explicou porque os EUA, que produzem alcool a partir do milho, sabidamente de baixa produtividade, bota o Brasil no chinelo em termos de produção.

Vão alegar subsídios e outras coisas. Não convence. O que querem os senhores? Isenção fiscal total, salários do setor achatados e álcool nas bombas a R$ 5,00 o litro para ser interessante? Me poupe.


julio cesar mascioli, pirassununga | 16/12/11 17:03
Caro Arnaldo
Parabens pelo artigo, o governo já matou o combustivel renovavel. Na minha visão , não teremos mais tempo de recuperar o prestigio do etanol diante dos consumidores. agora teremos que aceitar um novo projeto de ser combustivel unico com um maior % na gasolina
é uma pena , mas já foi a era 2 do etanol
Abraços
Julio


Anibal Rego, Araguari - MG | 16/12/11 21:11
Está muito mais facil que parece ... O fim do proalcool 2.
Ja fomos enganados nos anos 80, e estamos sendo novamente agora.
Nestes patamares de preço, os proprietarios dos carros flex já não abastecem a mais de ano com alcool. Eu mesmo sou um deles.
Estimular carros a gasolina mais economicos e menos poluentes, e diminuir a proproção de alcool na mistura da gasolina.
Não demora muito sobra alcool nas usinas, nos distribuidores, o preço cai.
O risco da produção virar açucar, tem um limite, que é a capacidade do mercado.
Estimulos aos usineiros é mais uma falacia, que usaram de verbas do governo, para produzir alcool e visaram o enchimento dos bolsos, desviando a produção para açucar.
O governo deveria sim é fazer pacto no setor e manter estoques reguladores para as entessafras, que seriam trocados ao custo do crédito concedido.
Chega de mamata e de mais mentiras para manter a casta de usineiros, que brinca com os brasileiros.


Martinho Ono, Sao Paulo | 16/12/11 23:24
Prezado Arnaldo -

Parabéns pela reportagem.
Infelizmente a grande massa da população desconhece a realidade.
No momento que o incentivo para a retomada de investimentos se faz necessário, só recebemos medidas restritivas e punitivas.
Vamos continuar lutando, vamos fazer a nossa parte.


Envie o seu comentário

Os comentários enviados serão publicados após aprovação. O Brasil Econômico reserva-se o direito de não publicar comentários considerados como ofensivos ou sem ligação alguma ao artigo em questão

outros jornais da EJESA