Há pelo menos dez anos, a política econômica brasileira está assentada sobre o tripé de câmbio flutuante, superávit primário e meta de inflação.
Essa estratégia de sucesso é responsável pelos bons fundamentos econômicos que hoje gozamos.
O grau de investimento concedido pelas mais importantes agência de rating do mundo confirma que hoje colhemos os frutos das acertadas decisões econômicas dos nossos atuais e ex-governantes.
Contudo, nem tudo são flores. As altas taxas de crescimento econômico recentemente divulgadas são um risco para o país.
Mais grave: enquanto a autoridade monetária (leia-se Banco Central) trabalha para desacelerar a economia por meio do aumento de juros, as autoridades fiscais (leia-se Ministérios da Fazenda e do Planejamento, sob a batuta do presidente do Executivo Federal) abrem as torneiras, despejando bilhões de reais na economia, deixando-a ainda mais aquecida. Um perigo para a estabilidade.
Hoje, o crescimento econômico além de nossas possibilidades traz consigo o risco de surtos inflacionários.
A explicação é singela: o país não tem estrutura para crescer ao ritmo chinês. A expansão econômica deve ser precedida de investimento em aumento de capacidade produtiva.
Na medida em que a capacidade instalada chega ao seu limite e a demanda continua aquecida, é natural que haja aumento de preços, algo que causa inflação.
O Banco Central do Brasil, ciente dessa realidade, elevou e vai continuar elevando a taxa básica de juros até que perceba que a meta de inflação pode ser cumprida.
Para 2010, a chance da inflação medida pelo IPCA (ìndice de Preços ao Consumidor Amplo) ficar dentro da meta é remota. Ainda assim, o BC vai continuar fazendo aquilo que se espera da autoridade monetária: diligência no trato do poder de compra da moeda.
Por outro lado, o executivo federal não tem enxergado o problema da mesma maneira e toma medidas que jogam mais carvão na já superaquecida economia brasileira.
O governo federal parece disposto a flexibilizar o fator previdenciário, algo que vai aumentar ainda mais os gastos do governo na já deficitária Previdência.
A base aliada do governo não conseguiu (ou não quis) barrar o aumento para servidores federais.
Somem-se a isso as bilionárias injeções de capital que o Tesouro Nacional está fazendo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para que este continue repassando dinheiro a um custo inferior àquele que o Tesouro captou no mercado e os sucessivos aumentos do salário mínimo acima da inflação que o governo federal tem concedido.
Esse desacerto entre as atitudes do executivo e do Banco Central causa preocupação e perplexidade entre aqueles que acompanham e torcem pelo sucesso do Brasil.
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Rafael Paschoarelli é professor de finanças da Universidade de São Paulo
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