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Ricardo Galuppo

Cheiro de mofo ideológico

05/03/10 07:19 | Ricardo Galuppo - Diretor de Redação do Brasil Econômico



Ontem, em Belo Horizonte, durante a inauguração da cidade administrativa Tancredo Neves, um grupo de deputados conversava sobre o rumo da sucessão presidencial agora que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, parece ter tomado uma decisão definitiva.

A menos que alguém o convença do contrário, Aécio não disputará a Vice-Presidência, numa chapa encabeçada por José Serra.

"É a vitória de Dilma", disse um parlamentar. "Sem o Aécio, ninguém em Minas votará no Serra", disse outro.

Eu quis saber a origem de tanta certeza e ouvi o seguinte: "Serra é paulista e ninguém aguenta mais um paulista na Presidência".

Se o deputado dissesse que Serra não tem apelo popular, se dissesse que Dilma Rousseff - com o apoio ostensivo do presidente Lula - é imbatível, se ele dissesse que a mensagem dos tucanos se perdeu no tempo, eu teria escutado e, certamente, não me disporia a escrever sobre o tema.

Mas negar o voto a um candidato que governará todo o Brasil porque ele nasceu aqui ou ali, cá entre nós, é a expressão de um preconceito que remonta aos idos de 1932. Coisa antiga. Cheira a mofo ideológico.

Sou mineiro, vivo em São Paulo há quase 20 anos. Apesar da aparente hostilidade para com os milhares de brasileiros de outros lugares que o escolheram para viver, São Paulo é um estado acolhedor.

Não discrimina pela origem. Quem tiver competência pode se firmar em qualquer área. Na política inclusive. Mesmo não sendo paulista.

Luiz Inácio Lula da Silva firmou-se em São Paulo como líder sindical e político porque tinha talento. Mesmo sendo pernambucano.

Fernando Henrique Cardoso tornou-se referência acadêmica e política em São Paulo porque tinha talento. Mesmo sendo carioca.

Jânio Quadros soube encarnar o pensamento de uma classe média que emergia no final dos anos 1950. Mesmo sendo mato-grossense.

O advogado Washington Luís firmou-se como líder da oligarquia cafeeira paulista. Mesmo sendo fluminense.

Ou seja: nenhum dos presidentes que São Paulo ofereceu ao Brasil depois de Rodrigues Alves (que governou entre 1902 e 1906) era paulista.

Mas eram líderes que, cada um com seu repertório, provaram sua competência no estado mais acolhedor do Brasil antes de alçar voos maiores.

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Ricardo Galuppo é diretor de redação do Brasil Econômico


Comentários

odair vicente , sao paulo | 05/03/10 09:17
Interessante seu comentario, principalmente pelos dados que apresenta referente ao Presidentes que são considerados paulistas, mas que de fato nasceram em outros estados. Há um aspecto que me intriga: houve algo na ação destes presidentes que os caracterizou como "administrativamente ou politicamente paulista" ? Sem entrar no merito da questão: mas creio que se os mineiros acham que é diferente as gestão destas pessoas para Minas, então algo esta errado, pois configura que estes presidentes não souberam separar as suas preferencias regionais.


Jean Hausemer, Belo Horizonte | 06/03/10 03:19
Concordo com o seu ponto de vista, Minas tem que se unir com São Paulo, pois os interesses da Republica Federativa do Brasil, são em beneficio da população, os politícos tem que deixar a vaidades de lado, pois quem não soma acaba perdendo.


José Luiz Almeida Costa, Belo Horizonte | 07/03/10 11:05
Eu acho que não se trata de disputas regionais, mas sim de ausência de propostas de governo. Nem o Serra, Aécio, Dilma, Marina e Ciro têm propostas de governo, ou discursos, capazes de mobilizar a nação. Na ausência disso, o embate pré-eleitoral fica empobrecido e rebaixado à paixões particularizadas. Não se esqueçam que Dilma é mineira, criada politicamente no Rio Grande do Sul, e sua candidatura representa mais um referendo ao "lulismo" do que um projeto de nação.


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