Ticker Bolsa 1

Ticker Bolsa 2

Entrevista

“Ainda vai chegar a nossa vez de participar de Belo Monte”

Nivaldo Souza   (nsouza@brasileconomico.com.br)
26/07/10 15:28


Franklin Feder diz que o pior da crise já passou e a empresa tem a meta de garantir abastecimento de energia

Franklin Feder diz que o pior da crise já passou e a empresa tem a meta de garantir abastecimento de energia

Collapse

Comunidade

Partilhe: del.icio.us   Digg   Facebook   TwitThis   Google   Mixx   Technorati  

Em entrevista ao Brasil Econômico, Franklin Feder, presidente da Alcoa para América Latina e Caribe, afirma que a produtora de alumínio pode ser sócia na hidrelétrica e já prevê ampliar a Alumar.

Em 45 anos no Brasil, completados no último dia 18, o passo mais ousado da Alcoa no país talvez tenha sido desembolsar R$ 9 bilhões para executar o projeto Juruti (PA), mina com reserva de 700 milhões de toneladas de bauxita, e ampliar a Alumar, fábrica de alumina e alumínio em São Luís (MA).

Tocados em meio à crise que abalou a economia mundial, a execução dos projetos demonstrou a importância da divisão brasileira dentro do grupo sediado nos Estados Unidos.

"No final de 2008, sem perspectiva de recuperação da crise, a Alcoa considerou suspender os investimentos. Mas, depois de muita briga, tomou a decisão corajosa de mantê-los", diz o presidente da companhia para América Latina e Caribe, Franklin Feder.

Agora, com Juriti operando com capacidade anual de 2,5 milhões de toneladas e a Alumar com 3,5 milhões de toneladas de alumina (semiacabado) e 50 mil toneladas de alumínio, a unidade brasileira ganhou musculatura dentro do grupo. "A região representa um horizonte de crescimento real.

Os Estados Unidos exauriram suas reservas de bauxita e a energia não o torna um lugar para produzir alumínio primário. Idem para a Europa. Estabelecer-se na Rússia e na China é complicado, o que torna Austrália e Brasil boas oportunidades. Temos uma base importante aqui e estamos prontos para crescer", diz o executivo.

O crescimento é esperado para este ano, com a meta de elevar em 9% as vendas de US$ 2 bilhões realizadas no ano passado.

No longo prazo, a companhia prevê ainda o aumento da extração em Juruti para 12 milhões de toneladas e a duplicação de Alumar para 6 milhões de toneladas de alumina e 1 milhão de toneladas de alumínio.

O planejamento passa, obrigatoriamente, por garantir fontes próprias de energia - insumo básico para transformar bauxita em metal.

"O principal gargalo que temos é a energia. Nosso foco está sobre isso", diz Feder.

A busca pela autossuficiência energética ganhou peso na estratégia da empresa a partir dos anos 1990, quando as privatizações elevaram a potência do preço do insumo. Não à toa, a Alcoa inaugurou em junho a Usina Serra do Facão e toca outros dois projetos.

Mas é para Belo Monte, hidrelétrica a ser instalada próximo a Juruti, que a Alcoa ajusta seu foco. O leilão de construção da usina, projetada para gerar 11 mil megawatts no Rio Xingu (PA) e orçada em US$ 19 bilhões, teve o consórcio Norte Energia como vencedor.

Encabeçado pela Eletrobras, o projeto prevê participação de apenas 10% para autoprodutores como a Alcoa. Contudo, a empresa terá de vencer no próximo mês a queda de braço com outros gigantes, como Gerdau e CSN, para dividir as fatias controladas pela Gaia Energia (9%) - empresa do Grupo Bertin e OAS - e pela Sinobras (1%).

"Acho que vai chegar a nossa vez. Ainda vamos participar de Belo Monte", afirma Feder.

O custo crescente da energia pode tornar o Brasil exportador só de alumina, o semiacabado, em vez de alumínio?

Essa possibilidade é absolutamente real. A Alcoa veio para o Brasil há 45 anos por dois motivos: tinha bauxita e energia com custo competitivo. Hoje, a energia se tornou uma das mais caras do mundo. O contrato que temos com a Eletronorte, por exemplo, para a fábrica de São Luís (Alumar) é o mais caro do sistema Alcoa.

A média paga por fábricas de alumínio no mundo é de US$ 30 o megawatt hora, segundo a CRU (consultoria britânica). Estamos pagando US$ 60.

A energia representa, no mundo, de 25% a 33% do custo de produção do alumínio. No nosso caso, ela está acima de 45%.

O governo e os responsáveis pelo setor elétrico sabem que é inviável produzir com este preço. O Brasil quer exportar produtos ou semiacabados? Essa é uma decisão de política industrial.

Por isso, garantir fontes próprias de energia é fundamental...

O Estado vê na renovação das concessões (de transmissão) em 2015 a possibilidade de aplicar uma política industrial que permita aos eletrointensivos (grandes usuários de energia) continuar operando de forma competitiva. A questão é como sobreviver até 2015.

Estamos fazendo a nossa parte, inauguramos a Hidrelétrica Serra do Facão (junho), Estreito deve fazer a primeira geração em fevereiro e aguardamos a licença prévia para Pai Querê. Além disso, estamos muito interessados em outros projetos.

Como Belo Monte?

Continuamos interessados em Belo Monte. Eu duvido que tenha alguma empresa eletrointensiva que não esteja interessada.

Todos querem uma fonte de energia limpa a um custo competitivo e Belo Monte, teoricamente, tem condições para isso. Mas entendemos que Belo Monte atrasou muito e o leilão foi realizado em condições que não são propícias para uma empresa como a Alcoa.

Somos extremamente estruturados, disciplinados, e para aprovar um projeto desses, de milhões de dólares, é preciso ter estabilidade de regras e um processo ordenado (de concorrência).

Vocês conversaram com os consórcios concorrentes?

Falamos com todos, mas não participamos. Como a licitação atrasou, um projeto integrado de bauxita, refinaria, ferrovia e um custo de energia muito competitivo fornecida pelo governo da Arábia Saudita pegou a vez de Belo Monte.

Como a Alcoa não é uma empresa onde a gente pode chegar com um projeto de última hora e receber uma aprovação, não participamos. Mas ainda acho que vai chegar o momento em que autoprodutores, que utilizam blocos grandes de energia e têm megainvestimentos como Juruti, terão a sua vez.

Isso quer dizer que a Alcoa estará em Belo Monte?

Acho que vai chegar a nossa vez. É o terceiro maior projeto hidrelétrico do mundo e será construído no Pará, onde temos a mina de Juruti. Acho que ainda vamos participar de Belo Monte.

A autossuficiência é uma meta?

Em fevereiro, quando Estreito entrar em operação, vamos chegar a 70% de autossuficiência. Mas para falar a verdade, não fazemos questão nenhuma de ser autossuficientes.

Ter contratos de fornecimento de longuíssimo prazo a custos competitivos é a nossa preferência.

Mas isso é possível?

Nossa visão estratégica é de que isso dificilmente aconteça. O ideal seria não empatar capital na área de energia. Mas já que não existe outra opção, a autogeração passou a ser essencial.

Energia é fundamental para Juruti. Qual o futuro da mina?

Juruti tem infraestrutura para atingir uma capacidade de 12 milhões de toneladas anuais. Mas vai depender da demanda.

Há prazo para isso?

Acredito que em 10 ou 15 anos.

Isso significa que a Alumar precisará de investimentos?

A Alumar pode produzir 6 milhões de alumina e 1 milhão de toneladas de alumínio. Para produzir uma tonelada de alumínio o capital em capacidade instalada é de US$ 5 mil a US$ 10 mil.

Como o tamanho mínimo de uma unidade (fabril) é de 300 mil toneladas, estamos falando de, no mínimo, US$ 1,5 bilhão para começar a produzir.

O mercado brasileiro absorveria tanto alumínio?

O mercado de metais é global e a ampliação não depende exclusivamente do contexto brasileiro. Acredito que em até 15 anos vamos ver a duplicação da Alumar.


Comentários

Ainda não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!
Envie o seu comentário

Os comentários enviados serão publicados após aprovação. O Brasil Econômico reserva-se o direito de não publicar comentários considerados como ofensivos ou sem ligação alguma ao artigo em questão

outros jornais da EJESA